domingo, 3 de agosto de 2014

2.

domingos existem para teu corpo cochilar nas minhas memórias, apesar dos contornos terem fugido com a banda e o passado não ter encontrado o caminho de volta. há sempre o silêncio no quarto, a vida que rumina lá fora, devagar, cada sílaba que deixou para trás.
não penso em você, como já disse, pois a ressaca é maior que o amor. por isso esse domingo não traz paz nem lençóis nem viagem. vem apenas e se sente estrangeiro. assina o livro de visitas da minha casa e corre direto pra área de fumantes.
se eu pergunto,
-não sei.
se eu discuto,
- sofismo.
e é assim o dia todo, uma penca de livros empoeirados e não lidos, a bicicleta solitária no cantinho do quintal, tudo que poderia ter sido e não foi, não é nem será. será que um dia escapo dessa vida que ora me emerge ora me expulsa?
fica a pergunta, mesmo que eu saiba que domingo é calado, duvidoso e nunca aprendiz.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

1.

há muitas coisas que eu queria dizer só um pouquinho, sem transbordar. como acordar de um sonho bom e leve e perceber que ainda é possível não ter medo sem ter controle de nada. porque é isso que sinto agora: um transbordamento incontrolável com um medo indizível.
se eu pudesse imaginar há uns cinco anos que eu estaria assim, tão fora de alcance, teria ajoelhado e pedido pro tempo segurar as pontas e a vida calar a boca. só por uns momentos, pra que eu pudesse lembrar agora como é não me preocupar em absoluto com o que vem e não chorar pelas madrugadas afora.
mas não é possível redesenhar o que já foi jogado fora, e a gente tenta lidar com o que tem. mas o que tenho agora são apenas incertezas ou passos desnorteados. há noites não consigo encostar a cabeça no travesseiro com serenidade e já nem consigo recordar o dia que quis acordar.
solidão não é estar sozinho no mundo ou não ter quem abraçar. solidão é um estado permanente, uma prisão perpétua sem alcance e visitas. é um pássaro que perdeu o voo, é seu filho que nasceu sem asas. é essa a palavra que melhor define esse exato silêncio que pulsa em mim: solidão? ou é distância, ermo, atacama?
eu sabia que essa sensação voltaria. ela estava ali, esperando ansiosamente o momento que eu deixaria escapar uma brecha no meu corpo. quando sai, cobre a pele de feridas, descostura as cicatrizes e cria novas para depois poder recriá-las mais fundo.
umas das piores coisas que existe é nascer extremo. é andar sempre na corda bamba. ou se vive ou se morre. é querer o mundo ou não querer nada. vamos fugir agora, senão nunca mais. é o vício ou a indiferença.
os dois polos fazem sofrer. um porque não se aguenta a explosão, o outro porque não se suporta o silêncio. e eu não consigo ser um ponto de equilíbrio para nada, muito menos pra mim mesma.